Opinião

“Sua tia não é fascista nem está sendo manipulada”, por Cora Rónai

“Sua tia não é fascista nem está sendo manipulada”, por Cora Rónai

18/10/2018 11:54

Por Cora Rónai do Globo

Apesar de eu ser ateia, Deus é bom e gosta de mim: no sábado pego um avião, vou para Atlanta, de lá para São Francisco e de lá para Seul, na Coreia do Sul. É muito chão, muito céu, muito espaço. Vou a trabalho, com uma agenda milimetricamente calculada, com diversas visitas a laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia.

Vou mergulhar num mundo de conhecimento e de respeito intelectual, muito distante destas eleições apocalípticas. É possível que, em algum momento, até me esqueça que o Brasil existe — e que, aqui, pessoas que até ontem eram amigas e se amavam andam com tanto ódio umas das outras.

É como se, subitamente, houvéssemos nos tornado todos horríveis uns para os outros, insuportáveis, pessoas nefastas e inconsequentes; em vez de sermos todos brasileiros, náufragos num mesmo barco à deriva. Se nada fora do comum acontecer, Bolsonaro já está eleito.

Uma péssima surpresa espera por seus eleitores, que tanta fé põem numa ruptura com o sistema: para além das declarações incompatíveis com o cargo, o deputado não tem nem projetos nem competência e, o que é pior, sequer tem conexões que garantam um mínimo de eficiência ao seu governo. Quem espera o pior não vai se desapontar. “Quanto pior, melhor” é um jogo de palavras bobo que encobre a sinistra verdade de que nada é tão ruim que não possa piorar. Quanto pior, pior mesmo.

A esta altura, deveríamos estar pensando juntos em como lidar com o futuro. Deveríamos estar cobrando propostas reais, exigindo respostas concretas e nos fortalecendo como sociedade civil, em vez de trocar mensagens insultuosas pelas redes sociais e nos distanciarmos cada vez mais uns dos outros. A vida pode ser péssima sob um péssimo governo, mas fica infinitamente mais desgraçada quando abrimos mão das redes de segurança e de afeto que nos oferecem os parentes e amigos.

No entanto, é para isso que nos encaminhamos — um tempo de desgoverno agravado pelo ódio que plantamos entre nós mesmos, incentivados por políticos canalhas que, amanhã, vão conviver faceiros pelos corredores ricamente atapetados dos palácios de governo, como se nada houvesse acontecido.

“As pessoas estão sendo manipuladas” é o novo “O povo não sabe votar”. As duas frases pressupõem uma casta de iluminados à prova de políticos populistas, e são igualmente arrogantes e elitistas. Elas embutem uma carga imensa de discriminação contra gente pobre e sem instrução, como se apenas estudantes de ciências sociais e pós-graduados em marketing estivessem aptos a entender as verdades ocultas da política.

O meme “A sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”, que tem circulado pela internet em todas as formas, e que é oferecido como uma espécie de salvo-conduto condescendente a parentes bolsonaristas, agrega ainda uma dose asquerosa de ageismo, aquele preconceito contra idosos que todos nós, que já passamos de uma certa idade, enfrentamos diariamente. A sua tia não é fascista nem está sendo manipulada. Ela apenas fez uma opção diferente da sua. A isso se chama democracia.

Comentários

Wilson - 18 de outubro de 2018

Olá Cora – minha mulher te adora, putz – Há uma incoerência na primeira frase deste artigo. No mínimo você é injusta, não correspondendo ao amor de Deus, sabendo que Ele é bom. Os jornalistas, em sua maioria, principalmente de O Globo, fazem análise da política atual olhando só para um lado. Por que um governo Bolsonaro seria apocalíptico? Em dezesseis anos de governos do PT fomos assaltados dentro da democracia. Transformaram Brasília em uma casa de tolerância e num balcão de negócios. Coisa jamais vista no mundo. Eu achava que o atual status quo só seria rompido da forma como ocorreu na Rússia czarista e na França absolutista, mas graças ao bom Deus no qual você não acredita vamos ter a mudança, no voto. Lembre-se o povo não está votando para eleger Bolsonaro, mas para tirar o PT das nossas vidas. Faça uma boa viagem, e que Deus a abençoe grandemente.

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UBIRAHY CALDEIRA - 19 de outubro de 2018

Houve uma época em que eu ía para o colégio (CPII), inclusive para assistir aulas de seu pai, o grande catedrático Paulo Rónai, além de ir a qualquer lugar que quisesse, no Rio, em meus meus 11 aninhos. Aliás, o nosso saudoso catedrático, ensinava comportamento, além de francês, apenas com o seu tom de voz. Jamais precisou alterar as falas de Monsieur Leblanc para sabermos o que era homem e o que era mulher, o que era certo e o que era errado.
Hoje, para transitar em vários pontos da ex-cidade maravilhosa, tenho que seguir as exigências de ditadores: “BAIXE OS VIDROS E FARÓIS, E ACENDA A LUZ INTERNA”, Portanto, não importa se Bolsonaro tem um magnífico plano econômico ou vai fazer maravilhas aqui ou ali. Eu quero andar tranquilo nas ruas da minha cidade e acho que isso, um militar pode garantir.
Há ainda outro aspecto essencial. Ando pagando impostos para governos o gastarem em campanhas estrangeiras e isso, além de ditatorial, é roubo.
O militar está mais próximo do civismo, do amor à pátria, porque é educado para isso. Roubar o seu povo é a antítese da educação militar e, mais um motivo para esperar melhorias através de Bolsonaro. Não posso dizer o mesmo de seu oponente.
Se vai sair tudo do jeito que espero, é óbvio que não tenho como garantir. Entretanto, sei muito bem o que esperar se um petista vencer as eleições.
Vou ficar aqui e votar, pois é hora de cumprir um dever comigo, com a família e com o resto da sociedade brasileira. Contudo, se não houvesse fortes ameaças por aqui, talvez voltasse a Jeju, um paraíso que recomendo conhecer (se já não conhece), a duas horas de Seul. Uma ilha interessante, que SEGURAMENTE (pois não tem as incertezas de nosso país) deve estar realizando o seu festival da tangerina.
Bon voyage.

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Leticia - 19 de outubro de 2018

Gostei mais dos comentários acima que do texto!
Parabéns Sr Wilson e Sr Ubirahy, compartilho dos mesmos sentimentos.
Deus nos abençoe.
E quem sabe a Dona Cora vai e não volta mais?

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