Opinião

“Peço licença para falar de dois Boechats”, diz Ancelmo Gois que foi seu substituto no O Globo

“Peço licença para falar de dois Boechats”, diz Ancelmo Gois que foi seu substituto no O Globo

11/02/2019 14:57

Por Ancelmo Gois


O primeiro: o colega e amigo. O Boechat boa gente, embora de temperamento difícil, até mesmo explosivo, mas que, no fim das contas, sempre pedia desculpas. Quando eu assumi o seu lugar neste espaço, em 2001, no meio de uma crise, Boechat foi de extrema generosidade comigo.

Começamos a conversar às 9h da manhã, numa padaria em Ipanema. Terminamos quase ao pôr do sol. Pacientemente, ele me dava dicas, sugestões, opiniões de como eu deveria ocupar o espaço que era dele. Não é comum, convenhamos, alguém deixar um posto de tanto prestígio profissional e ficar torcendo pelo sucesso do cara que vai ficar em seu lugar.

E mais: no rádio, ficava falando da coluna e elogiando o colunista. Isso é raro. Mostra a marca da generosidade que sempre o acompanhou.

Mas não foi só comigo que houve essa suprema gentileza. Até hoje, vários motoristas de táxi do ponto em frente ao GLOBO recordam-se de gestos semelhantes do amigo – que, inclusive, ajudou um deles a comprar o próprio carro. Jogava pelada com todo mundo.

Era uma figuraça.
O outro Boechat, o Brasil conheceu. O seu amor pela notícia levou alguns amigos, eu entre eles, a inventarem que ele tinha até um calo na orelha de tanto ficar pendurado ao telefone, à cata de novidades.

Fumava escondido na redação (a mesa dele era cheia de queimaduras de cigarro). É difícil dizer, neste momento, o que ele era: um colunista inovador, um grande repórter, um ótimo apresentador de telejornal ou um estupendo homem do rádio. Na verdade, era tudo isso.

Como colunista, assim como outros como o mestre Zózimo, Boechat ajudou a fazer uma importante transposição: do colunismo social de vaidades que exaltava bem-nascidos e celebrava – como se notícia fosse – uma simples festa de 15 anos, para um colunismo de notas variadas onde há espaço para informações relevantes sem jamais perder o humor.

Como repórter, deu vários furos, o que o fez ser um dos jornalistas mais premiados de sua geração, incluindo três Esso – durante muito tempo a maior honraria que um jornalista poderia receber.

 

Aliás, modéstia à parte, ele ganhou um Esso em cima de uma nota minha (eu estava na Veja) que denunciava, veja só, a roubalheira na Petrobras, em 1989. Como apresentador de telejornal, ele deu conta do recado.

 

E, finalmente, foi um gigante do rádio. Soube se reinventar. Acho que nem ele sabia que era tão bom ão bom assim com o rádio popular. Os seus comentários – algumas vezes inconvenientes, para o meu gosto – faziam um tremendo sucesso.

A quem quiser comprar briga com motorista de táxi no Rio: tente falar mal do Boechat. Era e é simplesmente adorado.

À sua família, deixo uma certeza: Boechat foi uma grande figura humana e um dos melhores jornalistas da minha geração. Foi mesmo. Saudades.

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