Opinião

O gosto pela dissonância e o “anarquismo” de Carlos Heitor Cony,  ṕor Zuenir Ventura

O gosto pela dissonância e o “anarquismo” de Carlos Heitor Cony, ṕor Zuenir Ventura

06/01/2018 21:46

Por Zuenir Ventura em O Globo

É até difícil quantificar o legado de Carlos Heitor Cony. Existe aquele conhecido pelo público. O escritor, o cronista, o jornalista. Mas também há o Cony que usava máscaras, como a máscara do cinismo, do pessimismo, do ceticismo.Ele mesmo admitia que usava isso para não ser seduzido pelo entusiasmo, ou melhor, pela empolgação.

O Cony adorava o paradoxo. Ele, na verdade, vivia do paradoxo. Era um anarquista muito anarquizado. Ele, que passou dez anos dentro do seminário, certa vez me contou que, de tudo que havia lá, o que mais gostava era dos rituais, da liturgia. Na Academia Brasileira de Letras, ele nunca se rebelou contra a liturgia. Ele sempre gostou disso.

Essa figura muito paradoxal gostava de passar a imagem de contraditório. A gente se encontrava muito no aeroporto, por causa de palestras, de eventos. Uma vez, eu brinquei com ele sobre esta máscara do pessimismo. Ele respondeu: “Eu uso a máscara do pessimismo, e você usa a otimismo”. Ele tinha toda a razão.

Cony é uma figura inesgotável. Ele se divertia muito com o paradoxo. Ele transparecia o ceticismo, mas, no fundo, ele era um sentimental. Era implicante, adorava provocar. Adorava desconstruir. Era o do contra. Tinha, como minha mãe falava lá em casa, o espirito de contradição.

Os amigos não tem nada a dizer dele a não ser afeto, carinho.

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Um é um dos maiores paradoxos ambulantes que eu conheço. Ele gostava de ser. Ele era, sobretudo, um implicante.

Eu conheço o Cony desde 1958. Desde aquela época, quando lançou seu primeiro livro, “O Ventre”, ele já tinha clara essa dissonância. Era tempo de JK, do brilho de Pelé, mas o livro é cheio de imagens fortes, dissonantes do momento. Isso já começa – e aparece claramente – no primeiro livro.

A palavra que marca Cony é o verdadeiro gosto pela dissonância.

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