Opinião

De “burocrata” tímido, Paulo Câmara teceu estratégia política “perfeita” e fez história

De “burocrata” tímido, Paulo Câmara teceu estratégia política “perfeita” e fez história

09/10/2018 22:26

Por Ricardo Antunes

De auxiliar discreto  de Eduardo Campos a governador reeleito não foram poucas as vezes que Paulo Câmara foi criticado pela falta de “habilidade política”. Mas o “burocrata” de anos atrás tomou gosto e mostrou que política é mesmo destino, como dizia Tancredo Neves. Se a comoção com o desaparecimento  de Eduardo foi fundamental para sua vitória em 2014, quatro anos depois ele mostrou que é capaz, sim, de “fazer pontes” e tecer seu próprio destino.

Colecionador de obras de artes e conhecido por seu rigor nas planilhas,  Câmara soube se adequar como uma luva ao perfil técnico que o ex-governador exigia de sua equipe. A disciplina sempre foi o seu forte, além de uma inegável vocação para os números e o planejamento.

Nunca pensou em virar governador de um estado importante como Pernambuco, mas o estilo discreto e focado ajudou na escolha pessoal de Eduardo Campos, que não queria um político como seu sucessor. Na ocasião, Tadeu Alencar, outro técnico ligado a família era o preferido de uma ala do partido, mas terminou sendo convidado a sair como candidato a deputado federal.

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Articulação política foi ponto importante para vitória ainda no primeiro turno

Administrar o estado no período de escassez de verbas e com uma economia beirando a recessão não foi apenas um desafio na sua primeira vez a frente do governo. Pouco a pouco, ele começou a encarnar o perfil político que todo governante precisa ter.

Como seu principal opositor, Paulo Câmara teve uma agenda intensa em toda a campanha. Era um ritmo “a lá Dudu”, confidenciou um assessor, lembrando o pique do ex-governador desaparecido em um acidente áereo na campanha presidencial de 2014.

O governador também “sofreu” com sua labirintite que o impediu de tomar café ou beber refrigerante. O resultado de tanta esforço e obsessão  foi uma  reeleição que ele construiu com  uma estratégia política perfeita:

Aproximou-se do ex-presidente Lula, fechou com o PMDB de  Jarbas Vasconcelos, trouxe Humberto Costa  para seu lado, “implodindo” a candidatura de Marília Arraes, e  deu a vice ao PC do B através da hábil Luciana Santos.

Fez um guia competente, montou uma assessoria de imprensa profissional e costurou boas chapas proporcionais, além de ter trazido  o PP – e seus milhares de votos da bancada evangélica – para participar de sua administração. E, por tabela ganhar mais tempo de rádio e tv.

Por fim, se colocou como  aliado principal de Fernando Haddad no estado,  mudou seu estilo discreto, passou emoção e liderança para sua tropa. “Ele simplesmente não errou em nada”, disse um observador da cena política para o blog ao comentar os fatores que o levaram a vitória.

A apreensão e o suspense em torno do segundo turno só teria fim depois que a apuração marcava mais de 90% dos votos apurados. Até ali, o segundo turno estava estampado nos percentuais de votos que teimavam em não passar dos 49%.

Quando superou os 50% o governador começou a sorrir para seus auxiliares  exibindo a certeza de que a missão estava cumprida. Era o fim de  uma das eleições mais acirradas do estado. Com 50,70% dos votos válidos ele enterrava a possibilidade de um segundo turno.

Depois do discurso de agradecimento no comitê central, o governador nem teve tempo de descansar.  Chegou em sua casa por volta das duas da manhã e só conseguiu dormir as três e meia, mesmo assim por pouco mais de uma hora. Por volta das cinco já estava de pé para atender os jornalistas.

Aos 46 anos e cinco quilos mais magro, tinha entrado para a história política de Pernambuco.

 

 

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